Carta de Apresentação do Núcleo de Alimentação e Saúde Germinal
UMA PITADA DE ANARQUIA E OUTRA DE ECOLOGIA
Numa época em que os espíritos generosos e arrojados tentam transformar seu ideal de justiça social em realidade objetiva, as nossas ambições não se limitam a conquista do pão, do vinho e do sal. – Queremos conquistar tudo o que é necessário à vida humana e até mesmo a utilidade que forma o conforto da existência; queremos a faculdade de poder assegurar a todos os homens e mulheres a plena satisfação das suas necessidades e dos seus gozos.Elisée Reclus, prefácio da Conquista do Pão de Piotr Kroptkine
O Núcleo de Alimentação e Saúde Germinal, conhecido como Germinal, é um grupo auto-gerido com o objetivo de consolidar e resgatar a agricultura como uma prática do dia-a-dia. Introduzindo os conhecimentos da ecologia social, da eco-alfabetização, da agroecologia e da economia solidária, luta por uma alimentação justa e saudável para todos, ajuda a articular a criação de redes entre trabalhadores do campo e da cidade e insere as propostas anarquistas no Movimento Ecológico e de Agricultores.
O Germinal foi constituído no ano de 2005 por militantes da Federação Anarquista do Rio de Janeiro. Tem entre seus participantes associados e membros de apoio, se estruturando em coordenações e tendo na Assembléia sua instância de deliberação. Seu nome rende homenagem à editora de livros organizada em meados da década de 60 do último século no Rio de Janeiro pelo anarquista Roberto das Neves, a Editora Germinal, que publicava obras sobre anarquismo, alimentação e saúde. É também o nome de um dos meses do Calendário Revolucionário Francês, instituído durante a Revolução Francesa e reativado pela Comuna de Paris, orientado pelas características e fenômenos da natureza. Inspiramo-nos no trabalho de grupos como a Associação Cultural Quilombo Cecília, a Associação Erva Doce, a União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus, o Movimento Sem Teto, o Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Pequenos Agricultores, entre outr@s.
Realizamos atividades voltadas para a alimentação saudável, a promoção da saúde coletiva e a produção e o consumo de produtos agroecológicos, com destaque para as oficinas, a apresentação de trabalhos acadêmicos, os Mutirões Pedagógicos de Ação Direta e os Almoços Dançantes Vegetarianos.
O público de nossas atividades são trabalhadores e trabalhadoras, militantes dos movimentos sociais, estudantes, sindicalistas, agroecologistas e pessoas afins. Algumas dessas atividades são realizadas em ocupações rurais e urbanas, e outras no Centro de Cultura Social – CCS-RJ. Localizado no bairro de Vila Isabel o CCS-RJ é um espaço libertário voltado a realização de projetos comunitários.
Para nossos trabalhos estabelecemos como princípios básicos o Apoio-Mútuo, a Ação Direta, a Autogestão, a Ecologia, o Classismo, o Internacionalismo, o Federalismo, a Ética, a Inserção Social, a Liberdade e a Agroecologia.
Para garantir nossa Sustentabilidade repassamos convites para os almoços e nossos materiais de divulgação, com a preocupação de que os mesmos tenham um valor acessível aos trabalhadores, além de contarmos com o trabalho dos nossos militantes.
Organizamos o Germinal por entendermos que é importante que nós, anarquistas, lutando contra as injustiças causadas pelo sistema capitalista, apresentemos nosso projeto político para o conjunto do Movimento Ecológico e para todos os trabalhadores e explorados. O Estado e a Burguesia são responsáveis pela continuidade desse sistema social e econômico. O capitalismo trata a natureza como insumo produtivo, e o esforço dos trabalhadores, como capital humano, se estruturando na exploração do trabalho humano, da natureza e da propriedade.
Acreditamos que o Movimento Ecológico surge a partir de lutas anticapitalistas anteriores, com a organização dos trabalhadores e trabalhadoras, feministas, negros, pacifistas, indígenas, sem-terra,
sem-teto e estudantes, tendo sua gênese no maio de 1968. O movimento Ecológico, que foi um movimento social combativo, foi aos poucos se tornando cada vez mais reformista. Sua institucionalização trouxe como conseqüência sua incorporação ao sistema que julgava combater. Isso ficou claro com o surgimento da proposta de Desenvolvimento Sustentável. Tal proposta, para nós um claro pacto entre classes, sugere a possibilidade da manutenção do desenvolvimento capitalista em conformidade com a conservação da natureza, a justiça social e a democracia. A seguir esse caminho, o Movimento Ecológico e de Trabalhadores da Agricultura tende a perder sua crítica radical ao sistema, a autonomia política e a capacidade de construir alternativas sociais e econômicas.
Por isso o Germinal vem a somar esforços com tod@s que querem derrubar essa sociedade e sobre suas ruínas plantar um mundo novo, onde haja justiça social e liberdade para todos os seres vivos e a natureza.
Queremos contribuir para a radicalização e a pluralidade dos movimentos sociais e por fim a retomada do caminho rumo a Revolução Social.
Lutamos para que prevaleça o modelo de produção agroecológico em detrimento do modelo de agricultura para o mercado e para que a terra, assim com os demais meios de produção, esteja nas mãos dos trabalhadores.
Lutamos contra a sociedade de classes, para que se construa uma anárquica em seu lugar, onde o bem estar seja para tod@s e a natureza seja bem cuidada. A Agroecologia, enquanto técnica de produção e ciência, possui um papel fundamental nessa transformação. Através dela podemos refletir junto aos trabalhadores sobre as relações sociais e econômicas que não mais queremos e, sobretudo, aquelas que desejamos. Utilizando a Agroecologia, socializamos a terra, os meios de produção e os alimentos saudáveis, ao mesmo tempo em que cuidamos bem da natureza e trabalhamos sem exploração.
Em nossa breve existência não poderíamos deixar de registrar nossos agradecimentos. A todos os Apoios, aos que comparecem nas atividades organizadas, aos agricultores e agricultoras rurais e urbanos, aos moradores e moradoras das ocupações urbanas, a Cooperativa de Consumo Rede Ecológica, ao Grupo de Agricultura Ecológica, a Fazendinha Agroecológica, aos movimentos sociais que estão na luta no campo e na cidade, aos membros do CCS-RJ e aos militantes da FARJ, sem os quais o trabalho do Germinal não poderia florescer.
SAÚDE, AGROECOLOGIA e ANARQUIA.